Quem disse que a vida de um jornalista ou escritor de não-ficção é fácil. Gay Talese que o diga em seu recente livro"Vida de Escritor", lançado em 2009. Incrível como ele levantou meu astral, após eu ter lido sobre as suas dificuldades em escrever matérias rotineiras (chega uma hora que enche mesmo), não poder aprofundar sobre alguns assuntos, personagens ou locais que merecem um maior destaque, mas o jornal diário não abre espaço ou na falta de inspiração para sentar e colocar toda a pesquisa no papel.
Talese começa e termina o seu livro de forma inteligente, usando a história de Liu Ying. Uma jogadora da seleção chinesa de futebol, que perde um penalti decisivo na final da Copa do Mundo de 1999, nos Estados Unidos, favorecendo o anfitrião. Seu chute desperdiçado significa a derrota dos orientais.
Vendo isso, Gay Talese (que sempre gostou de escrever sobre os "perdedores") quer saber o que se sucede na cabeça da jovem e como o seu país a recebe novamente. Mas o editor do New York Times não aceita bancar a sua viagem. Então ele decide ir atrás da notícia por conta própria.
Situação que se repete nas outras crônicas que "recheiam" o livro, entre a narrativa de Ying. Um edifício histórico em NY, que resiste bravamente às construções modernas e que tem uma "maldição" contra os restaurantes que ali se instalam. Uma mulher que corta o pênis de seu marido e se torna um símbolo feminino na luta contra o machismo. A luta racial nos Estados Unidos e a influência na vida do jornalista, assim como a sua origem italiana e sua ligação com os restaurantes. Pequenas histórias que estavam no arquivo dele, marcados com a etiqueta "incompleto".
"Vida de Escritor" é seu primeiro livro em quase vinte anos. Um período em que ele "enrolou" seus editores, atrás de uma história perfeita, mas que não surgia. Então 'rolou' a ideia de juntar essas histórias e mostrar que não é só de diversão que é feita a vida de um jornalista, mas sim de muitas "portas na cara" e muitos "não" decepcionantes.
Leitura obrigatória para todos os estudantes de jornalismo. Quem sabe assim eles poderão entender o que é realmente ser um jornalista e a briga diária dentro de uma redação. Alguns vão desistir, outros vão se encantar pela dureza e prosseguir. Se você já é um jornalista ou escritor, vale muito a leitura, pois poderá te dar aquela injeção de ânimo (o que aconteceu comigo). Se você não é nenhum dos dois, vale a pena. Pela narrativa ousada e moderna, assim como pelas histórias surpreendentes de Gay Talese.
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