quarta-feira, 4 de maio de 2011

O retrato do depois

Você já pensou sobre o que será de você quando a sua vida acabar? Este é um assunto que intriga a sociedade, desde os tempos mais remotos. Várias crenças – senão quase todas – se baseiam em trazer um significado sobre o fim ou a continuação da vida (depende do ponto de vista). Desde os mulçumanos, cristãos, passando pelas tribos indígenas ou africanas.
Por isso, a pergunta inicial volta à tona. De alguma maneira ou outra você já parou e pensou: “qual será o meu destino?”. Será que você entrará em um harém com muitas virgens? Ou caminhará pelas ruas de ouro e cristal, na presença dos anjos? Para os mais incrédulos, a morte somente consiste no cessar da consciência, exatamente quando o cérebro deixa de executar suas funcionalidades e pronto. Seu corpo se transformará em poeira e um amontoado de ossos.
Normalmente, quando pessoas próximas morrem, remetemos a mente a esse pensamento. Na verdade, esta deve ser a dúvida mais cruel, um paradigma do ser humano.
Morte. Uma palavra tão forte e temida por alguns.  Tanto que a representação que todos dão para ilustrar é de uma coisa assustadora e terrível. Com um ar pesado. Uma capa preta, sem rosto, corpo sem forma e uma foice. Rondando por aí, pronto para levar qualquer um, a qualquer momento.
Escrevendo estas linhas e meditando sobre o que acontecerá comigo após minha partida deste mundo, lembro de exemplos diversos que já rolaram pela Indústria Cultural. Desde a morte nas histórias em quadrinho, ilustrada pelo genial Maurício de Souza (bem ao estilo tenebroso, em que falei antes, mas com uma pitada de graça), até a série Supernatural, em que ela é representada como um ser humano e conversa com um dos cavaleiros do apocalipse sobre o seu destino, afirmando ser mais velha que Deus e de ter “assombrado” outros planetas.
Mas o que inspirou a indústria audiovisual foi a Segunda Guerra Mundial. Poucas vezes a senhora morte teve tanto trabalho como naqueles anos cruéis. Duas produções se destacam ao expor o choque que os soldados tiveram com a hipótese de que a morte estava à espreita: Band os Brothers (que retratou a campanha na Normandia) e The Pacific (mostrando a luta dos norte-americanos contra o avanço japonês).
Em Band os Brothers, um episódio em especial me chamou a atenção, pois aliou a tensão habitual com o maior espetáculo de horror que já aconteceu na Terra: o holocausto. Na ocasião, os soldados aliados encontram um campo de concentração e a cena consegue retratar a morte está no ar, mesmo nos humilhantes seres que ainda estavam vivos. Se pudesse sentir o cheiro dela, eu diria que este era o momento, mesmo estando do outro lado da telinha.
Pessoas esqueléticas suplicando por socorro, sem comer a vários dias e convivendo com os corpos de seus parentes, empilhados em valas comuns ou em um canto qualquer. Uma sensação única, que assusta e paralisa qualquer ser humano. A recriação da cena foi excepcional, pois de uma forma real, eu consegui ver como somos tão frágeis. E o velho pensamento retorna: como será o “outro lado” destes milhões de pessoas que morreram naquela época, tanto vítimas do holocausto, quanto vítimas da guerra?
Se alguém tiver interesse em ouvir o lado da morte, e a trabalheira dela na Segunda Grande Guerra, pode ler A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak. Ela que aterroriza tanto, se defende e afirma ser “animada, agradável e afável”. “Esses adjetivos, menos simpática...”. Vale a pena, assim como um jornalista justo, ouvir o lado dela. Quem sabe conseguimos responder algumas de nossas dúvidas.
Não sei se responderá àquela cruel do início. Ainda perderei muito tempo filosofando e tentando adivinhar o que será de mim, quando essa senhora me acertar com a sua foice pesada. Ou melhor, não vou pensar mais sobre isso. Recomendo que aproveitemos a vida. Oscar Wilde deixou a mensagem, tentando explicar: "Morte é o fim da vida, e toda a gente teme isso, só a Morte é temida pela Vida, e as duas refletem-se em cada uma”.

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