Uberaba, Curitiba. Em uma noite de sábado são contabilizados oito corpos sem vida no bairro. Traficantes da Vila União usam da frieza para vingar a morte de um integrante do grupo, assassinado pelos rivais do Jardim Icaraí.
Duas semanas antes, também em um sábado, visitei a região, sem saber a bomba relógio que a localidade era. Após conhecer o projeto PrasBandas, que em uma escola municipal atende as crianças carentes, ocupando seus sábados com oficinas de fotografia e música, um projeto inovador em uma área miserável, acompanhei Getúlio Guerra – fundador do projeto – em um tour pelas duas vilas.
Saindo da Escola Maria Piovezan, situada em uma larga e movimentada avenida, entramos no Jardim Icaraí, uma antiga invasão, com casas reformadas e algumas regularizadas pelo tempo de ocupação. O asfalto é precário, mas existe em várias partes e a sensação não é de extrema miséria. Ônibus circulam pela região e dentro das casas, carros estão estacionados nas garagens. O medo de circular pelas vielas não é tão intenso.
Sabemos que é uma região controlada pelo tráfico e não é qualquer um estranho que pode andar por ali. Os riscos são enormes, pois você pode ser considerado um invasor. Neste caso, estamos com acesso livre. O carro é do projeto e está personalizado com adesivos.
A situação vai se degradando conforme avançamos os trilhos do trem. Do outro lado, a realidade é outra. Lá está a Vila União, espremida entre os trens e os banhados. Na parte sul da Vila, asfalto é inexistente. As ruas estão encharcadas por conta das últimas chuvas. Nas casas, feitas com tapumes e lonas, o chão é batido e não escapa da lama que vem da rua. Indo ao limite, é possível observar que a invasão avançou até onde seria impossível construir. Moradores aterraram o pântano, próximo ao Rio Iguaçu, com restos de construções, “catadas” nas imediações, erguendo suas tábuas em verdadeiras areias movediças.
Andando, observamos que vários cavalos pastam no pouco mato que emerge do barro. São os meios de transporte mais comum da Vila União, além de companheiros de trabalho, na árdua missão de catar materiais recicláveis.
Mas, a esperança é visível conforme avançamos para o norte. Casas espaçosas são erguidas, comparadas a um oásis em meio ao deserto. É a regularização, promovida através do governo federal, em parceria com a Prefeitura, que trouxe o PAC da habitação, acendendo uma chama de esperança em toda aquela população.
Porém, o encantamento é interrompido por um grupo que está logo a frente. Ao redor de um carro, cinco jovens conversam próximos a uma das saídas da invasão. Logo notam a presença estranha, interrompem a conversa e passam a nos encarar com expressão desafiadora.
Acompanhado da experiência de Getúlio, que periodicamente caminha pela vila promovendo as oficinas, calmamente cumprimentamos o grupo, sendo retribuídos por um ou dois “e aí” e um olhar que acompanhava a nossa passagem.
Não nos encontramos com nenhuma viatura policial nesses quarenta minutos que percorremos as vielas das duas rivais localidades. Só histórias de assassinatos em uma região que está no top do ranking da violência curitibana.
Projetos são desenvolvidos, mas são recentes e não abrangem toda a comunidade. Falta o básico para um ser humano viver com dignidade. Uma realidade presente em todas as grande metrópoles, seja na cidade dos rótulos, ou na cidade da Olimpíada.
A culpa? Não sei de quem é a culpa. Vai desde um secretário, que não reconhece um crime organizado e admite que a polícia perdeu para alguns “moleques”, passa pelos deputados “urubus” paranaenses e chega lá em cima, até os altos comandos da política, seja municipal quanto estadual, pois quando tragédias como essa acontecem, não adianta jogar a culpa ali ou aqui. Ela é de todos e isso deveria ser admitido, em respeito às vitimas e seus familiares.
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ResponderExcluirPode ser ampla... De governantes que facilitam os impostos de empresas multinacionais, geram expectativa de novos empregos e uma propaganda de que Curitiba era uma cidade modelo, de primeiro mundo.
ResponderExcluirPode ser restrita também... De pessoas que se contentam com pouco, que tão vivendo aqui na terra um inferno simplesmente porque são preguiçosas (e se acham espertas) e preferem invadir um espaço público do que financiar algo vida afora.
Mas, algumas poucas pessoas me interessam entre culpados e feridos. Que tem uma garra fora do comum, são pacienciosas, curiosas, divertidas, respeitosas e carinhosas. Uma delas é Reginaldo, nosso cantor da turma de bateria. Quando o oficineiro perguntou pra classe de mais de 20 alunos e alunas quem queria cantar lá na Praça Renato Russo só o Reginaldo topou. Menino de 10 anos, estuda a 3ª série e é considerado o "capeta" pelas professoras e diretora da escola onde damos as oficinas todos os sábados. Desobediente, apronta muito... Mas, quando chegamos pra mais uma tarde de música, ele é outro. Me vê e vem me abraçar, me beija, é super prestativo, ajuda a descarregar e a carregar o carro do Johhny - o oficineiro.
Ele não quer ser culpado por não tentar uma vida menos violenta :)
Valeu Gabriel! Que em breve a gente possa fazer um novo enfoque jornalístico pras bandas de lá.
Abraço
GG