quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O verdadeiro repórter do povo


Caco Barcellos é, antes de um repórter, uma pessoa como qualquer outra. Conversa com todos e não sofre do mal do jornalismo: achar que é superior e blindado a críticas. É sensível também: fica sem comer enquanto estiver brigado com alguém. Sensibilidade que, muitas vezes, foi transformada em matérias memoráveis, como coberturas de guerras e conflitos – tanto internacionais, quanto nacionais, exemplos são suas publicações mais famosas: Rota 66 e Abusado.

Não tem medo da polícia, nem de traficantes e sempre procura o lado humano da notícia, retratando detalhes que o público não vê tão fácil nos jornais respeitados da noite, nem nos programas policiais da hora do almoço. Sabe retratar como poucos a violência urbana e já se tornou um especialista no assunto.

Aliás, esse tema foi o motivo que trouxe o jornalista, comandante de nove jovens discípulos do “Profissão Repórter”, a Curitiba. Convidado a ministrar na Feira de Gestão da FAE, Caco falou para uma platéia que, em sua grande maioria, não está acostumada a conviver com a realidade das favelas e da violência urbana. Surpreendeu.

Com os pés no chão, discutiu sobre violência urbana, no trânsito e a falta de sabedoria da imprensa brasileira, que não consegue seguir o principio básico do jornalismo: retratar a maioria da sociedade. Ele próprio, não se colocou em uma classe majoritária, confessando que dentro da própria profissão existem matadores, como seu “amigo” Pimenta Neves que matou uma ex-namorada, também jornalista.

De bate pronto, traz dados da representatividade da violência da PM na sociedade. Segundo estatísticas da Anistia Internacional, não são os assaltantes os grandes matadores brasileiros, pois nunca chegam a matar 4% das 47 mil mortes anuais. Já a polícia paulista representa 12,2% das mortes em SP, enquanto a PM carioca, encabeçada pelo famoso Bope, totaliza 24% da violência no Rio de Janeiro. O número de execuções policiais ultrapassa o de falecidos em todo mundo por pena de morte, que chega a 150.

Como exemplo da realidade que é mostrado pela imprensa, o jornalista usa o trânsito. “Para retratar a violência no trânsito tem que ir atrás da principal vítima. No caso, o motoboy”, diz Caco. Como fundo desse exemplo, ele mostrou o início de uma edição do Profissão Repórter, que trazia casos de motoboys vitimados pela intolerância, além de trazer os maus exemplos de motoqueiros que aproveitam os corredores, quebrando retrovisores, em um sinal de vingança aos veículos de quatro rodas.

Barcellos cita Gay Talesse ao trazer a tona o papel da imprensa e a sintonia que ela deve ter com a população. “Com a evolução da nossa categoria ficamos arrogantes, não querendo saber a posição da sociedade”, afirma Caco, usando o caso de repórteres que cobrem guerras pelo mundo.

“No Iraque chegou a surgir os ‘repórteres cowboys’, que davam tiros juntamente com os soldados, deixando claro que o tendenciamento tomou conta dos correspondentes de guerra. Os repórteres não demonstram mais o lado da sociedade, como no episódio da Guerra do Vietnã, quando a imprensa conseguiu derrubar o conflito”, completa o jornalista.

Finalizando, ele diz que a imprensa tem que se preocupar e pensar com a maioria de uma população. Se for no Brasil, com a classe trabalhadora, que luta a cada dia e sofre todo o tipo de dificuldade enfrentada nas periferias. “O jornalista brasileiro tem que retratar tanto a Suíça, como a Etiópia brasileira. No caso da maioria, mais a Etiópia”, concluí Caco Barcellos.

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