terça-feira, 13 de outubro de 2009
Os bastidores da notícia: Uma entrevista com Caco Barcellos
O Enfoque Jornalístico traz uma entrevista exclusiva de um jornalista e escritor brasileiro consagrado pela critica e pelo sucesso. Caco Barcellos, repórter da TV Globo há mais de 20 anos, atualmente dirige o programa jornalístico “Profissão Repórter”, sendo um dos maiores jornalistas investigativos da história do Brasil. Especialista com décadas de trabalho sobre violência policial é o autor de Rota 66: A polícia que mata e Abusado – o dono do morro Dona Marta.
A entrevista foi concedida ao jornalista Gabriel Hamilko, após sua palestra sobre a violência urbana no Brasil, na 9ª Feira de Gestão da FAE.
Gabriel Hamilko: Falando do seu trabalho, qual a importância da contextualização na informação repassada aos telespectadores, principio que se tornou um diferencial do Profissão Repórter?
Caco Barcellos: De extrema importância, pois é a chave do bom jornalismo. Você pode enganar o telespectador só falando verdades se você não contextualizar. Se acontecer um crime e você não diz que ele é resultado de um processo de 40 anos de atividade, você está ocultando algo, explorando somente os aspectos negativos dessa fatalidade. Às vezes, na comunidade ao lado, o mesmo crime aconteceu 50 vezes, só que divulgar vai contra os interesses de um determinado prefeito, deputado ou outro político, deixando de informar. Isso é falta de contextualização, tornando o noticiário sensacionalista. Esse é o contexto da informação que o programa tenta passar.
GH: Qual a importância do Profissão Repórter e como você avalia a participação da sua equipe?
CB: É essencial que eles se envolvam nas histórias e mergulhem em cada edição do programa, pois se é para apenas fazer entrevista, rapidinhas com as pessoas, já temos isso no jornalismo. Nós temos que fazer algo que é diferente do que já está no ar, então optamos pela profundidade. Têm histórias que acompanhamos por sete meses, um exemplo é o programa sobre os assassinatos na favela de Nilópolis, onde uma jovem morreu por uma bala perdida, e os moradores revoltados incendiaram um ônibus, fechando o acesso da comunidade. Para mostrar o contexto da situação, os repórteres ficaram trinta dias dentro da favela e descobriram que nas trocas de tiros com traficantes, policiais balearam mais cinco pessoas. Passamos um lado diferente das reportagens dos telejornais, dando razão a revolta, pois não era só um monte de gente fazendo um simples protesto pela morte de uma garotinha, mas por vários assassinatos não esclarecidos. Nada mais justo que a revolta.
Por isso nossa postura é essa, nós vamos ao local e explicamos aquilo que está acontecendo. Claro, que quando você está na favela um dia, você está capacitado para contar a história daquele dia, mas quando o prazo é de trinta dias, sua capacidade será para contar uma história dos trinta dias.
GH: Como é trabalhar com o Profissão Repórter dentro de uma emissora em que não tem costume usar a profundidade da notícia em sua programação jornalística?
CB: Veja bem, ele está sendo veiculado nessa emissora, então eles gostam muito e nos dão toda a estrutura para fazer isso, a ponto de daqui a pouco eu vou estar saindo daqui, para ir ao aeroporto de Cumbica me encontrar com a equipe que estará embarcando para uma cobertura na Indonésia, retratar o terremoto. Isso prova que a televisão sabe que esses garotos têm uma enorme capacidade para poderem estarem juntos aos maiores correspondentes do mundo. Sou agradecido à emissora por eles confiarem em um projeto como esse, e também acho que é interessante, pois o público está gostando.
GH: Como é o amadurecimento desses jovens desde quando eles entraram?
CB: É muito interessante acompanhar, até porque eu continuo amadurecendo junto, todo o dia eu aprendo uma coisa nova. Eles aprendem em uma velocidade que eu admiro muito, desde a energia, vontade de aprender e de agarrar a oportunidade, além da consciência de que as coisas não são fáceis, pois a nossa profissão tem até certo glamour, mas eles se dão conta que para isso tem que ralar muito, mas muito. Muitas vezes, eles trabalham trinta horas direto, com um intervalo de uma ou duas horas de descanso, até chegar perto do objetivo, e essa noção de batalhar é muito forte no grupo.
GH: Passando para a temática do seu trabalho, você sempre valoriza o lado humano nas reportagens, você acha que esse tratamento está desaparecendo no jornalismo atual?
CB: Acho que não. Quando você trabalha com o lado humano dos personagens, aumenta sua chance de envolver o telespectador na história que você quer contar. Quando você escolhe tal personagem, ela é representativa no universo que você pretende trabalhar. Quando você ganha a confiança das pessoas e elas abrem a vida para você, aumenta sua chance de convencer o telespectador a ouvir aquela história. Com muita emoção, vivem momentos de extrema felicidade. Quando acompanhamos por um mês ou nove meses, a gente procura estar perto dessa pessoa nos momentos mais marcantes da vida dela. Se você está se formando este ano e a gente está te acompanhando, nós queremos falar da sua formatura, estar vibrando com seus pais, um momento bacana, pois é um tempo de reconhecer o seu esforço ou decepção, pois quem sabe, você sofreu uma baixa em uma prova fundamental que fez você chorar, estaremos chorando junto. Assim, procuramos estar nos principais momentos da vida daquela pessoa.
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