quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O mago da ilha

Todos que já passaram pela trilha do Belo, bem próximo a encruzilhada que divide os caminhos que ou levam para a Praia Grande ou para a Praia do Belo, já avistaram o simples casebre, montado há um bom tempo, pintada de azul, janelas de madeira, com algumas frestas que permitem dar uma espiada básica e uma varanda, que mistura cozinha e sala de estar no modo mais simples de se viver. Na frente dessa casa, situada em uma clareira no meio da trilha que corta a mata, está uma rede laranja velha, que está suja, pois nunca é desmontada dali, tomando chuva, sol e ventanias.

E quem passa e avista essa simples casa tem uma grande probabilidade de encontrar com uma figura lendária da ilha, que há, aproximadamente, 20 anos se juntou ao folclore da ilha. Um senhor com suas aparências beirando os 60 anos, corpo frágil e um pouco corcunda, uma barba rala que começa a crescer, já atingindo aproximadamente três a quatro dedos, cabelos poucos vistos, pois ele quase sempre está ou de boné ou de chapéu, mas com uma pequena careca no centro e cabeleiras esparsas, mediamente compridos, descendo próximo às suas orelhas.

Apesar da sua aparência frágil, ele guarda olhos atenciosos e penetrantes quando concentrado em tal pessoa. Quem conversa com ele, fica cativado com sua expressão forte e principalmente pela simpatia proporcionada. Não é por menos que passada a primeira impressão – de um senhor maluco perdido no meio do mato – todos se afeiçoam a sua pessoa e compartilham um alegre e vigoroso “E aêê garotoooo”, bordão preferido e slogan dessa figura conhecida como Nhô Jeca.

Ele não tem inimigos, e todos que o conhecem compartilham diversos passados sobre Nhô: desde um mágico famoso – devido as suas dezenas de mágicas, prontas para serem feitas para quem o visitar - até um aviador.

Mas na verdade, Nhô Jeca é de tudo um pouco, até os mais esquisitos adjetivos e profissões lhe atribuídas, o que, sinceramente, não duvido que não seja capaz de encarnar em qualquer momento. Nhô Jeca é uma pessoa com uma dupla personalidade, duas figuras, dois nomes que o perseguem sua vida inteira e neles se misturam e de um deles já fugiu em algum momento da sua vida.

Andando na Praia Grande em uma sexta, que diferente da semana inteira, não estava chuvosa, mas nublada e com maré alta, passei no Canto da Vó Maria, cumprimentei Dona Ângela e Seu João, que estava deitado e com alguns problemas de saúde e segui a trilha em direção à Praia do Belo, para um alô para Nhô Jeca. Não tinha certeza se o encontraria, mas chegando lá, vejo as janelas abertas e uma pequena movimentação.

Era o querido “mago da ilha” que tinha acabado de retornar de uma entrega de uma encomenda próximo ao Farol. Uma canoa em miniatura, feita em madeira indígena, originária da Ilha da Cotinga. Ele designou como seu mais novo passatempo, além de ser mais uma forma de fonte de renda. “Dá para ganhar mais um dinheirinho, com um ou outro, pois sempre que algum turista passa por aqui, acaba comprando um”, diz.

No caminho de volta da entrega, o simpático velho passou na mercearia e comprou algumas batatas, duas salsichas, uma cachaça pequena e um maço de cigarros. Ficou chateado por não ter pães para comer com sua sopa que iria fazer logo mais, mas pensou em uma solução - que não seria a mesma coisa - mas preencheria a falta do pão: bolinhos de chuva que tinha feito pela manhã em sua humilde casa.


O interior de sua moradia é simples. Um cômodo que divide as funções de sala de refeições e quarto. Logo na entrada tem uma mesa no centro e um armário sem portas no fundo, onde ele guarda seus utensílios básicos, como velas, isqueiros, cigarros e bebidas. Na outra parede, ao lado da porta de entrada, o armário é pregado no alto da parede, e ali ele coloca seus mantimentos, como o estoque de massas doadas ao longo da alta temporada.

“São miojos, macarrões e sopões que o pessoal sempre traz quando vem acampar. Eles trazem muito e não usam tudo. Na volta, dão um grito e deixam tudo por aqui comigo. Encho esse armário com tudo isso e que dá para o ano inteiro”, afirma. E realmente dá e sobra. Em meio ao inverno, ele ainda tinha aproximadamente trinta macarrões instantâneos, dez spaghettis e um sopão que faria daqui a pouco.


Três cadeiras envolta à mesa são as poltronas que recebem suas visitas e mais ao fundo do cômodo comprido fica seu quarto, sem nenhuma divisão com a entrada. Uma cama à direita, uma estante, com portas embaixo, onde ele guarda parte de sua roupa e ao fundo, entre a cama e essa estante, sua escrivaninha de arte. Pendurada em pregos em cima da cama, ele deixa quatros jaquetas. Tudo simples, móveis antigos e praticamente sem pintura, desgastados pelo tempo e pela ação da local.

Sem a menor cerimônia ele recebe suas visitas, no caso eu, e todo alegre com a surpresa pede para sentar, me saudando com seu bordão oficial e perguntando se está tudo tranquilo. De pronto, ele manda mais uma de suas respostas clássicas, quando retribuo a pergunta: “Estou vendendo, quer comprar?”, se referindo a sua vida na Ilha, sem carros, sem barulhos urbanos, sem o agito das metrópoles.

Na casa não tem luz elétrica, então como já começava a escurecer, Nhô Jeca começava a preparar seus lampiões, segundo ele, uma arte japonesa, ensinada por um japonês. São duas vasilhas cheias de óleo usado, que repassam para ele, com um barbante grosso que encharcado dentro do óleo, fica com uma pontinha para fora, servindo como pavio. Então é só acender e clarear o suficiente para passar a noite no meio da escuridão do matagal. E que escuridão. Trinta minutos depois, por volta das seis e meia da noite já estava tudo rodeado pelo breu. Vou à porta e dou uma olhada para fora, a escuridão é intensa. Você não consegue enxergar a um palmo na sua frente.

Em meio a penumbra ele relembra seu passado: o que mais o orgulha? Além de ter abandonado tudo para morar na ilha, Nhô se orgulha também da sua época de ator de teatro, quando fazia um monólogo cansativo, como ele mesmo define, mas com sua interpretação prendia a atenção das pessoas até o final do ato: “Era magnífico, as pessoas te aplaudindo de pé e você satisfeito e orgulhoso por conseguir conduzir um monólogo com qualidade e destreza”, diz.

A sua dupla personalidade é marcante na sua história de vida. Pode ser dividida em Fausto Bueno e Nhô Jeca. Já foi de tudo um pouco. Aos 20 anos estudava e trabalhava como tipógrafo em uma gráfica. Iniciava sua vida no mundo das letras. E literalmente, pois na época o tipógrafo montava o jornal letra por letra. Da gráfica comum foi para a gráfica de um jornal, até mais tarde se juntar a algumas redações na forma de colaborador.

Nos estudos cursou Letras e virou professor de literatura brasileira, sua paixão na juventude. Mais tarde, acumulou essa função com o de radialista, após crescer no mundo da comunicação. Além de ser comunicador e professor, Fausto sempre trabalhou com pintura. Com o passar do tempo passou a fabricar faixas e placas para amigos, mas sua clientela foi aumentando, expandindo para a região metropolitana e litoral.


No radialismo, Fausto Bueno era o personagem Nhô Jeca, que animava as manhãs da Rádio Atalaia, divertindo seus ouvintes com as imitações do pitoco – muito bem representado pelo rosnado que até hoje imita com categoria (ronc-ronc, rusticamente falando) e o pato (nhac-nhac, definitivamente indescritível imitá-lo com palavras). Atualmente, as crianças da Ilha do Mel são os que se divertem com os animais de Nhô.

Morando na Cruz do Pilarzinho, Fausto tinha seu apartamento e seu veículo próprio, uma típica vida de classe média, na qual não tinha muitas preocupações financeiras. Mas a rotina o estressava.

“Trânsito, carros, sinaleiros, aquele cheiro horrível de fumaça e poluição. Toda a cobrança que tem morar em uma cidade, aquilo me estressava. Cada vez que chegava em casa, desligava o motor e ficava uns quinze minutos parado dentro do carro meditando e relaxando para baixar a carga. Todo aquele agito me corroia por dentro”, diz.

O agito e sua rotina boêmia, que sempre falou alto. Nunca recusou um velho boteco com os amigos e sempre manteve hábitos nada saudáveis (como mantêm até hoje) como a cachaça e o fumo. Toda essa soma começava a afetar a sua saúde.


Após fazer um check-up geral, doutor Luis, seu médico, lhe deixou uma previsão nada animadora com a secretária, pois não teve coragem de falar pessoalmente: “Você tem cinco anos de vida se continuar nesse ritmo”. Seu corpo não suportava mais tanta carga. Seus pulmões, fígados e coração já não eram os mesmos com 46 anos de vida.

Cansado de tudo isso, certo dia foi entregar um serviço de pintura na Praia de Leste, mas após o serviço resolveu dar uma passada na tão falada “Ilha do Mel”, naquela época conhecia pelo sossego que representava, isolada do tumulto urbano.


Ao descer combinou consigo mesmo: esqueceria suas profissões múltiplas e aproveitaria esse final de semana de aventura. Não deu nada certo ou deu certo demais, depende. Primeiro, ele disse que seria somente uma semana. Essa semana poderia entrar para o livro dos recordes, pois até agora nunca terminou.

Segundo: ao descer “estava com a boca seca” e foi logo procurando um bar para molhar a garganta. Ao chegar no boteco, próximo ao local de desembarque de Nova Brasília, já foi reconhecido pelo próprio botequeiro, que também era de Curitiba e foi ajudado pelo Fausto no passado. Não tinha como negar: essa era o Nhô-Jeca da Rádio Atalaia, e a partir dali sua segunda personalidade prevaleceu, sufocou a de Fausto e passaria a ser somente Nhô Jeca o seu nome, sem nada mais. Poucos sabem da existência de Fausto Bueno em toda a Ilha do Mel.

Armou sua barraca na encruzilhada da trilha que vai para a praia do Belo, trocando a barraca pelo casebre, que até hoje permanece em pé, assim como o senhor que após os 60 passou da péssima previsão de vida, que era de cinco anos para os atuais vinte anos que já mora na Ilha, firme e forte, mesmo com a companhia do fumo e da cachaça, porém com um segredo: vizinhos que dão inveja para qualquer um. Árvores e uns cantores que todo o final de madrugada o acordam à beira de sua janela. Para explicar, Nhô Jeca não diz, assobia. Isso basta.
Quem passa pela trilha pode simplesmente se deleitar com a história dessa figura lendária, hoje, símbolo da Ilha do Mel e já integrante do folclore do local. E aê garoto!

3 comentários:

  1. É por isto que admiro vc. Como profissional e como amigo. Parabéns.

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  2. Acabei de conhecer o lendário pessoalmente hoje na ilha. Fiquei mais feliz em ler essa historia contada por vc de forma tão simples e ao mesmo tempo regrada de reais sentimentos. Adorei.
    Um abraço

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  3. Obrigado Fátima, realmente ele é uma figura que vale a pena conhecer.

    Abraço

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