Pleno domingo pela manhã em uma sala escura. Espectadores silenciosos, curiosos, assistem com os olhos vidrados. Não, não é cinema, e estranharia muito um cinema em uma manhã dominical. Os olhares fixados se direcionam para sombras que se movimentam por trás de um pano branco.
Quando a porta abre, raios de luz não são bem-vindos, todos voltam o olhar para o invasor que distrai e intimida por alguns momentos as movimentadas sombras que circulam no pequeno palco.
Poucos devem ter ouvido falar, mas essas sombras são artistas teatrais, que divertem, ilustram e distraem crianças com seus pais. Mais do que um teatro infantil é uma arte primitiva, que até hoje encanta pela sua forma artesanal e enigmática. Estamos falando de uma vertente primitiva do teatro: o teatro de sombras.
A história prende crianças e adultos no Teatro do Piá, na Fundação Cultural de Curitiba. No pequeno auditório, meio improvisado, janelas cobertas com panos escuros, cortina no final, bancos rústicos de madeira lotados, mas ninguém liga para o conforto, todos estão concentrados nas imagens escuras que bailam e se digladiam por trás do pano.
Curitiba tem o privilégio de sediar um dos poucos grupos especializados em teatro de sombras do Brasil. Liderada por Marcello Andrade dos Santos, a Companhia Karagözwk foi criada em Lages, estado de Santa Catarina, e há 23 anos mudou-se para a capital paranaense. Aqui já produziram vários espetáculos, animações, encomendas para empresas, entre outras atividades ligadas ao mundo artístico. Mas a paixão é o teatro de sombras.
Marcello é especializado nesta modalidade com o mestre na arte de sombras, Jean Pierre Lescot, no Instituto Del Teatro de Sevilla, na Espanha. A partir daí sua vida se tornou desenvolver o projeto de divulgação dessa arte no Brasil.
Tudo é feito da forma mais simples possível, sem custos e com materiais recicláveis. Por trás do pano branco, onde as sombras emergem, uma bagunça organizada está a postos. Painéis com imãs, figuras recortadas em papelão jogadas em todos os cantos, organizadas conforme o uso. Refletores compostos de latas de massa de tomate, com uma luminária reaproveitada, apoiada em um patins antigo, que ajuda a mover rapidamente a luz e indicar as sensações de movimento.
Outros projetos exigem mais detalhamentos: bailarinos profissionais são as sombras representando no outro lado, refletores maiores, mas nada foge da simplicidade que esse teatro exige. Simplicidade de execução e estrutura, mas não de desenvolvimento. Só para quem é mestre nessa arte consegue conduzir uma história, com perfeição de bonecos, vários cenários e luzes.
O espetáculo citado no início deste texto é o menor do acervo da Companhia, mas na opinião de Marcello, não é o menos importante. “Nele usamos a menor tela que temos e só precisa de uma pessoa para conduzir, mas cativa crianças e adultos, pois mostra de uma forma diferente um conto popular com a vida e costumes no interior do nosso país. É fantástico ver a concentração de todos e atenção que eles demonstram pelas peças e pela técnica”, diz o produtor.
A peça “Compadre rico, compadre pobre” é bancada pela Lei de Incentivo à Cultura, esteve em cartaz todos os domingos do mês de julho, no Teatro do Piá e voltará em novembro (veja a programação no final).
E quem acompanha a peça não se arrepende. Tem aqueles que acomanham o espetáculo querem ver de novo, e novamente. É o caso do menino Karuan Oliveira, 11 anos. Filho de artistas, todo o domingo está na feira do Largo da Ordem, pois os pais têm uma barraca. Enquanto eles vendem, Karuan vai fazendo amizades e assistindo o que tem por aí.
Porém, mais do que assistir, ele se entusiasma e quer saber como são os bastidores. Sem nenhuma vergonha, ele vai à frente, assim que termina a peça, e conversa com Marcello. Quer saber de tudo, e em uma piscada, o menino já está atrás das cortinas “enfiado” entre a “bagunça” dos papelões, refletores e fios.
Segundo Karuan, o interesse foi tão grande que ele chegou a montar um cenário parecido. “Convenci o meu pai a fazer comigo uma estrutura parecida com essa para encenarmos um teatro de sombra parecido. Já assisti três vezes aqui, e vou assistir até acabar e quando voltar estarei aqui de novo”, diz o entusiasmado garoto.
Marcello retribui deixando Karuan explorar sua sede artística. “É engraçado o jeito como ele vai entrando no meio e querendo saber, pode ser meio intruso, mas não podemos barrar, tem que o deixar ver tudo, desde como funciona, pois somente assim nascem novos artistas talentosos, e quem sabe ele não é um desses, que vai dar continuidade a esse teatro primitivo que é o de sombras”, diz.
O lema de Marcelo e da Companhia Karagözwk é levar a arte onde o povo está. “O reconhecimento depende 50% do mundo e 50% do artista. Vem de um bom trabalho, feito com esforço”, completa.
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